A Invencível Armada

Batalha Naval entre a Invencível Armada de Felipe II e a Inglaterra de Elizabeth I em 1588

Batalha Naval entre a Invencível Armada de Felipe II e a Inglaterra de Elizabeth I em 1588

A ARMADA QUE ERA INVENCÍVEL

Durante o século XVI e começos do XVII, a mentalidade vigente na Europa desde a Idade Média sofre progressiva transformação. O espírito de conquista e aventura, tão bem caracterizado nos romances de cavalaria, aos poucos vai sendo substituído por uma mentalidade mais calculista, de preparação para a ação articulada.

Numa primeira etapa desse processo, a imprevisibilidade e o cálculo vão diferençar nitidamente duas nações europeias – a Espanha e a Inglaterra – que todavia haviam iniciado o mesmo processo de evolução, a partir do mundo medieval.

Tanto a Espanha quanto a Inglaterra finalizaram o processo de centralização do poder real. Esmagaram as rebeldias dos grandes senhores da nobreza feudal. Triunfaram com a autoridade monárquica. Suas máquinas administrativas tornaram-se cada vez mais poderosas e complexas. Mas seguiram, posteriormente, caminhos diferentes.

Motivo: as transações mercantis com que a Europa desenvolve o capitalismo, após conseguir superar a ética medieval, que condenava a usura e o comercio.

Modelo de Galeão utilizado para o combate

Modelo de Galeão utilizado para o combate

Os grandes banqueiros e comerciantes apoiaram decididamente a centralização do poder real. São o esteio onde a realeza se sustenta para poder manter suas guerras europeia e unificar o Estado, sob o comando do rei.
Em 1580, a Península Ibérica une-se sob a coroa da Espanha. O Império espanhol abrange, então, Portugal e todas as suas colônias, parte dos Países-Baixos (atual Bélgica – herança do Sacro Império Romano-Germânico); Nápoles, as Duas Sicílias; Milão e a Sardenha.

E, ainda, suas colônias americanas. As regiões europeias davam-lhe poder político e as Américas enchiam seus cofres de ouro e prata. Por essa época, a Espanha tornara-se, com Felipe II, a nação católica de maior força na Europa. E para combater as heréticas crenças dos protestantes funda-se a Companhia de Jesus, um dos principais veículos da contrarreforma católica.

Felipe II

Felipe II

Com toda essa extensão territorial e os benefícios dela advindos, tendo ainda um rei despótico, a Espanha reunia muitas possibilidades de um enorme surto de desenvolvimento capitalista. Mas não teve.
A Inglaterra, verdadeiramente ilhada depois de perder o único porto no continente (Calais), tinha porém, algo que já a diferenciava da Espanha. No reinado de Henrique VIII tornara-se protestante, com um breve período católico de Maria I, que se casara com Felipe II.

Depois de sua morte, assumira o poder sua irmã Elisabeth I. O protestantismo fora consolidado na Inglaterra e a rainha protegia as regiões onde a nova religião se instaurara. Isto porque, quase sempre, os ricos comerciantes e banqueiros eram judeus ou protestantes. Com o auxílio da Inglaterra, a Holanda, por exemplo, conseguira desvincular-se da dominação espanhola. Sendo uma das partes dos Países-Baixos onde muito se desenvolveu o protestantismo, ali se concentraram os comerciantes expulsos das regiões onde essa religião não era tolerada.

Elizabeth I

Elizabeth I

Dentro do próprio país, Elisabeth cercava-se da burguesia que, em troca de benefícios oficiais, assegurava à Inglaterra o início de uma expansão comercial e, depois, territorial, que iria torna-la a dona dos mares um século mais tarde. Dominando os holandeses (os mais potentes comerciantes e navegadores da época), a Inglaterra assegurou um ponto de apoio no continente europeu, e em pouco tempo se tornou a dona dos mares.

A Espanha, que havia dominado completamente o comércio internacional, não consegue alcançar um desenvolvimento maior porque não cria as empresas capitalistas para as quais era necessário um grande acúmulo de verbas. As transações comerciais expressas pela teoria econômica do mercantilismo, correspondente à fase do “metalismo” (acúmulo de metais preciosos para posterior utilização em empresas), não foram, na Espanha, um pré-requisito para a formação daquelas empresas.

Na Inglaterra e na Holanda, onde os feitos comerciais eram praticados por ricos burgueses e banqueiros, o Governo não só os arovava como tomava medidas de proteção. Aos poucos o próprio poder real passa a ter participação nos lucros do comércio, até assumir a liderança dos negócios e manter companhias estatais.

Gravura dos combates entre a Invencível Armada e Navios Incendiários

Gravura dos combates entre a Invencível Armada e Navios Incendiários

Na primeira metade do século XVII, a Espanha se apresentava em condições de competir com a França, ainda bastante forte no comércio europeu. Mas começava a perder terreno para a Inglaterra e a Holanda no comércio colonial – na época o mais importante – dadas as quantidades de matéria-prima a ser transformada em produtos comerciáveis na Europa, além dos carregamentos de metais preciosos.

Os galeões espanhóis carregados de ouro e prata começaram a ser pilhados por piratas franceses, holandeses e, sobretudo, ingleses. Estes obtinham da rainha as “cartas de corço”, que lhes permitiam saquear à vontade, ficando o poder real com o seu quinhão.

Felipe II percebeu que precisava dominar, pelo menos, a Inglaterra, já que a Holanda estava perdida para a Espanha desde 1581, com a separação das Províncias Unidas. A aliança efetivada com a Inglaterra, em 1586, fortaleceu os holandeses.. Restava uma única e ousada saída: aniquilar a Inglaterra atacando-a “em casa”. Forma-se então na Espanha a maior frota jamais reunida desde a época das Cruzadas – A Invencível Armada.

Formação estratégica da esquadra espanhola: meia lua

Formação estratégica da esquadra espanhola: meia lua

Com a morte de Maria Stuart, católica, aliada a Felipe e a rainha da Escócia, que foi decapitada a mando de Elisabeth, o rei da Espanha teve o desejado pretexto para assaltar a Inglaterra.

A 30 de maio de 1588 partiram do porto de Lisboa 130 navios. Sua tripulação de 7 mil marinheiros faziam as manobras com os cânticos de louvor à Virgem Maria, enquanto os 17 mil soldados esperavam a hora de lutar. Mas logo após a partida, a formidável esquadra é atingida por uma tempestade onde vários navios são avariados. O Duque de Medina Sidonia, comandante da esquadra, não vê possibilidade de um ataque satisfatório e envia ao rei uma mensagem onde diz que “o remédio seria alcançar algum acordo honroso com o inimigo ou voltar à carga com maiores garantias”. Felipe não se abala. Manda retomar viagem.

Nova tempestade, já há 17 de julho, os surpreende e várias embarcações se dispersam. Só no dia 19 é que avistam terra e são avistados pelo inimigo. Mas a Inglaterra estava preparada para a batalha. As notícias chegaram a tempo de se formar uma esquadra para a defesa. Era composta de 90 barcos leves, de fácil manobra.

Francis Drake

Francis Drake

Os planos de Felipe II eram de combinar a invasão por mar com a ação de tropas vindas dos Países-Baixos, para um ataque simultâneo aos portos britânicos. As tropas não vieram e a 28 de julho os ingleses lançaram oito navios incendiários contra a famosa e até então impenetrável formação em meia-lua da esquadra espanhola. Não havia como revidar o ataque. O melhor seria levantar âncoras e fugir. Perdeu-se a formação da esquadra e muitos navios afundaram ou ficaram danificados.

Só lhes restavam contornar as ilhas britânicas e voltar à Espanha, ainda que tivessem de enfrentar os ingleses em seu encalço. Na viagem de volta perderam mais navios.

Chegaram em águas espanholas com a esquadra reduzida à metade, aportando no dia 13 de setembro. Aos planos de ataque de Sir Francis Drake deveu a Inglaterra a sua vitória, com ações muito bem arquitetadas e com o estudo prévio das forças do inimigo espanhol. A Espanha ficou, então em difícil situação político-financeira, além de economicamente arruinada. Perdera seu poderio nos mares e, portanto, demonstrara sua incapacidade de dominar as colônias e controlar os abastecimentos que de lá provinham.

Cena final com a derrota espanhola e a ascensão da Royal Navy: supremacia no mar até o século XX

Cena final com a derrota espanhola e a ascensão da Royal Navy: supremacia no mar até o século XX

É o início de sua decadência como império. As rédeas do jogo do comércio internacional passam à Inglaterra e à Holanda que, daí em diante, vão lutar entre si pela supremacia dos mares e dos territórios coloniais.

O episódio da Invencível Armada bem ilustra as consequências de uma ação intempestiva, que exigiu grandes gastos sem a certeza de lucro. Cada empresa que então se formava sabia que tinha um risco a correr, mas tentava e conseguia diminuí-lo pelo cálculo rigoroso de probabilidades.

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